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18/12/2009

Bandeira branca

Há uma grande confusão feita pelos meios de comunicação em massa sobre o ato de viajar. Diz-se que viajar é excelente para quem está com problemas, pois refresca a mente e entende-se que tudo tende a melhorar depois de uma temporada longe de casa.

Sinceramente, essa solução apresentada é muito excludente e muito ilusória. Nem todos podem viajar ao surgimento de um problema, e muitas vezes durante a viagem, quando realizada, o problema permanece arquivado, não-solucionado, esquecido.

Há momentos na vida em que a permanência do indivíduo é indispensável para a realização de algo importante, por mais chato que pareça. Numa prova de concurso, por exemplo, um candidato que tiver um mau-humor repentino e for embora da sala será desclassificado na hora. Ir embora em certas adversidades é hastear bandeira branca ao ver que uma situação está ficando preta.

Problemas não têm leis próprias que os fazem ser autorregulados, sendo assim preciso o controle de alguém para resolvê-los. Parar um pouco e desligar-se momentaneamente da realidade é prazeroso e até benéfico, mas prevenção de stress não pode ser confundida com alienação.

06/11/2009

Não estou lá



Admirar outro país é perfeitamente plausível. Interessar-se por outras culturas e lugares é perfeitamente compreensível, mas agir na terra natal como um lord britânico, uma gueixa, um mariachi ou algum outro estereótipo é ridículo, especialmente nunca tendo visto nenhum desses personagens.

Engolir sem mastigar a visão de um cineasta prestigiado e o que falam sobre uma cidade cosmopolita em outro país é ridículo, podendo contribuir para uma grande decepção numa sonhada viagem. Ninguém tinha te avisado que o custo poderia ser bem maior que o imaginado, que o povo era ignorante, não veste nenhum traje além de camiseta e jeans, e que aquela comida maravilhosa como naquele filme que passou no Telecine era raramente degustada.

Pior ainda é se comportar de uma forma suposta de comportamento, forjando sintonia com desconhecidos que talvez estejam em outro lugar do mundo, pensando que nasceram na cidade errada, no país errado e na época errada.

26/10/2009

Nada ao mesmo tempo agora

Faço parte de uma geração tudo-ao-mesmo-tempo agora, ou geração z, tanto faz. Faço trabalho do colégio, vejo e-mail, escuto música, vejo televisão, converso com a minha mãe e falo no msn com outras pessoas. Fiz uma escolha achando que fazendo tudo eu fico ocupada, menos tempo para o diabo trabalhar na oficina da minha mente vazia, e sinceramente não vejo nada com conteúdo em (quase) nenhuma dessas atividades estressantes.Fazer tudo sem fazer nada. Tenho vários recursos e cada vez eu quero mais rápido, mais fácil, mais tudo. Posso fazer mihões de coisas, mas não posso fazer algo que importe. Tenho na cabeça que tenho que estar ocupada, mesmo falando "ah, vi um filme idiota e tive uma conversa igualmente idiota fazendo um trabalho em cima das coxas". Quero provar que eu sou aberta, altruísta e antenadíssima, mesmo sabendo que eu não sou tão aberta nem altruísta. Talvez antenadíssima, mas e daí?

25/09/2009

De onde vem a calma

Prantos, promessas, presságios,
Prazos, presentes, procrastinações,
Prozacs e procedimentos operacionais-padrão
Princípios, palavras, papéis

Palácios, prata, pedras,
Paredes, portas e proteção,
Pareceres, permissões, prescrições
Opiniões num papo

Programas, passeios, parceiros.
Passaportes, planos, Paris,
Prêmios e poucas palmadinhas:
Puramente supérfluos

Procura-se plena paz
Profunda, paciente e perene
Pouco plausível porém possível
Repentina e inoportuna.

21/09/2009

Sangue nosso

Mulher que na urna espera voto de outra
Por questão de pura e simples empatia
Só por sangrar todo mês da mesma forma,
Esquece o sangue nosso de cada dia

Que nós brasileiros desde sempre derramamos
Para remissão de todas as nossas mazelas
Seja na capital Brasília, no senado
Ou no Rio, nos conflitos nas favelas

O sangue azul da madame do bairro nobre
Que por nada no mundo se diz brasileira
É derramado, no entanto, da mesma forma
Que o sangue suado do homem da feira

O nordestino que em maio espera a chuva
O pesquisador que enriquece a ciência
Médicos decepcionados pondo suas luvas
Ou o carinha que espera com paciência

O garimpeiro procurando diamantes
E os índios em Roraima, nas suas ocas
Todos sofrem igual ao ouvir as notícias
Mas também cobrando sem fazer nada em troca

15/09/2009

O círculo de giz branco

Um jovem ditador
Que, apesar da pouca idade,
Carregava experiência
De um dono da verdade,

Esse tal conservador
Fazendo-se um favor
Pensou em algo muito prático
Porém pouco democrático

Faltava-lhe paciência
Pra lidar com tantos nãos
Teve uma grande ideia
De riscar com giz no chão

Riscou pagode, axé
Feios, pobres, patricinhas
Nerds, hippies, gays, playboys
Seguidores de modinhas

Começou uma brincadeira
Fazer limites no chão
Viu-se sem eira nem beira
Isolado na multidão

Dedicado à Dora

08/09/2009

Em 4 minutos, outro trem

Na hora do rush, no metrô alguns estão bravos
A passagem, de novo aumentou dez centavos

Mesmos personagens em rostos diferentes
Moça de terninho e um velho impaciente

O homem cansado, no banco, em standby
E as patricinhas que dizem "bye bye"

O universitário, jovem esportista
Mais uma menina que quer ir ao dentista

Adolescentes dos colégios federais
Uma mulher gorda vendo comerciais

"Este metrô é um dos melhores do mundo"
Outro dando dicas para um sono profundo

A morena no pôster, toda maquiada
"Respeito é bom pra não ser bolinada"

Chegando em casa, exaustão costumeira
Político na TV comendo na feira

Querendo mostrar que é um homem acessível
Após aquele escândalo que foi incrível

Prometendo melhor país, melhor cidade
Apenas a náusea que sinto é novidade